O direito de preferência em leilão de imóveis depende de uma hipótese legal: parentesco, copropriedade e condição de fiduciante produzem direitos diferentes. No leilão judicial, a preferência normalmente opera em igualdade de oferta ou de condições. Na execução extrajudicial fiduciária, existe uma aquisição preferencial pelo valor previsto na Lei 9.514/1997.
Para quem pretende arrematar, isso muda a análise do lote. Uma pessoa com preferência pode interferir no resultado, mas a simples existência de um familiar, coproprietário ou ocupante não impede a participação de terceiros. É necessário identificar o direito, seu titular e o procedimento para exercê-lo.
Para quem afirma ter preferência, o cuidado é transformar a condição pessoal em uma manifestação documentada e compatível com o preço, o pagamento e o momento da venda. Esperar o encerramento e depois alegar que gostaria de comprar pode ser insuficiente.
Quem tem direito de preferência na arrematação?
O primeiro passo é localizar a norma aplicável. O quadro reúne as principais situações deste artigo; ele não substitui a leitura dos autos, do edital e dos documentos da garantia.
| Hipótese | Titular e fundamento | Condição central |
|---|---|---|
| Preferência familiar no judicial | Cônjuge, companheiro, descendente ou ascendente do executado; CPC, art. 892, § 2º. | Igualdade de oferta, observada a ordem legal. |
| Bem indivisível em copropriedade | Coproprietário ou cônjuge não executado; CPC, art. 843, § 1º. | Igualdade de condições, com proteção própria da quota alheia à execução. |
| Bem tombado no judicial | União, Estados e Municípios; CPC, art. 892, § 3º. | Igualdade de oferta e ordem prevista para esses entes. |
| Execução extrajudicial fiduciária | Fiduciante; Lei 9.514/1997, art. 27, § 2º-B. | Nova aquisição pelo preço legal, no intervalo previsto na norma. |
| Imóvel locado | Exige exame da Lei 8.245/1991, especialmente art. 32 e parágrafo único. | A preferência locatícia tem exclusões para alienações forçadas e realização de garantias. |
Não se deve montar uma ordem geral entre todos os titulares do quadro. Cada hipótese tem pressupostos próprios. Se direitos de bases distintas forem invocados no mesmo processo, a solução precisa considerar o objeto da venda, as condições e a decisão judicial pertinente.
Preferência não significa comprar pelo preço mínimo
Uma oferta de R$ 400 mil não vence outra de R$ 450 mil apenas porque a primeira foi apresentada por um familiar do executado. A preferência pressupõe a equivalência exigida pela norma, dentro do procedimento da alienação.
O valor nominal também não resolve toda a comparação. Forma de pagamento, garantias e condições admitidas precisam ser examinadas. No regime do CPC, o art. 895, § 7º, estabelece a prevalência da proposta à vista sobre as propostas parceladas. Ser titular de preferência não cria, por si só, direito de impor parcelamento. CPC, arts. 892 e 895.
Por isso, confirme como o juízo e a plataforma recebem a manifestação, quando ocorre a verificação da condição do interessado e como são resolvidas propostas equivalentes. O cadastro como licitante e a comprovação da preferência são providências que precisam funcionar em conjunto.
Os recursos para o preço e as despesas também devem estar disponíveis no vencimento. A condição preferencial não substitui a aprovação de crédito nem prorroga o pagamento. O guia de financiamento, FGTS e prazos no leilão aprofunda essa preparação.
Preferências no leilão judicial: situações que precisam ser separadas
Cônjuge, companheiro, descendente e ascendente
O art. 892, § 2º, do CPC indica essa ordem para o caso de igualdade de oferta. A regra não abrange qualquer parente: irmão, sobrinho ou primo não entram automaticamente nessa lista por vínculo familiar. A pessoa pode ter outro fundamento, como copropriedade, mas ele precisa ser demonstrado.
Apresente os documentos que comprovem a relação alegada e esclareça a pretensão no processo. Se houver disputa entre pessoas da mesma categoria, não invente um critério de desempate por idade, proximidade afetiva ou grau de participação na família sem fundamento aplicável ao caso.
Coproprietário e cônjuge alheio à execução
No bem indivisível, o art. 843 do CPC reúne duas proteções que não se confundem: preferência para arrematar em igualdade de condições e preservação econômica da quota de quem não responde pela execução. O fato de uma pessoa ser casada com o executado não dispensa investigar regime de bens, titularidade e responsabilidade pela dívida.
No AgInt no REsp 2.251.084/MG, a Terceira Turma do STJ reafirmou a possibilidade de alienação integral do imóvel indivisível, com preferência e reserva da quota do coproprietário alheio à execução. O julgamento ocorreu em 24/8/2026, com publicação em 27/8/2026, sob relatoria do ministro Humberto Martins. O acórdão distinguiu a constrição da quota do devedor da possibilidade de vender o bem inteiro. Registro oficial e ementa do STJ.
Isso não significa que qualquer edital de fração ideal ofereça a propriedade inteira. A decisão que autorizou a alienação e a descrição do lote devem ser confrontadas com a matrícula. O guia sobre fração ideal em leilão de imóveis explica essa diferença.
União, Estados e Municípios em bem tombado
O art. 892, § 3º, do CPC estabelece preferência desses entes, nessa ordem, em igualdade de oferta no leilão de bem tombado. O tombamento e os atos de proteção precisam ser conferidos; aparência antiga ou referência informal a valor histórico não bastam. Verifique também a cientificação prevista para essa hipótese no art. 889.
Exemplo: a quota protegida é calculada sobre a avaliação
Considere um imóvel indivisível avaliado em R$ 1 milhão. Metade pertence ao executado e metade a coproprietário alheio à execução. Suponha que a venda integral por R$ 600 mil seja admitida pelas regras e decisões do processo.
A proteção da quota de 50% tem como referência a avaliação: R$ 500 mil, e não R$ 300 mil, que seriam metade do preço reduzido. Restariam R$ 100 mil do produto da venda antes de examinar despesas e a distribuição judicial. O exemplo ilustra a proteção do art. 843, § 2º; não define um preço mínimo universal.
Há duas perguntas diferentes: quanto deve ser reservado a quem não responde pela execução e em quais condições essa pessoa pode adquirir o imóvel. A reserva da quota não entrega o bem automaticamente nem autoriza abater valores do depósito por conta própria. Se o coproprietário pretende arrematar, a forma de recolhimento e eventual aproveitamento de sua quota devem ser definidos no processo.
Antes de participar, confira se o edital e as decisões deixam claro o objeto, o valor de avaliação, as quotas e o tratamento do produto da alienação. Uma conta feita somente sobre o lance pode ocultar uma restrição à viabilidade da venda.
Preferência do fiduciante depois da consolidação
Na execução extrajudicial da garantia fiduciária, a lógica é outra. O art. 27, § 2º-B, da Lei 9.514/1997 assegura ao fiduciante a preferência para adquirir o imóvel após a averbação da consolidação no patrimônio do credor e até a data de realização do segundo leilão. A redação atual decorre da Lei 14.711/2023. Lei 9.514/1997, art. 27, § 2º-B.
Não é uma disputa para simplesmente igualar o lance de terceiro. O preço legal envolve saldo da dívida e componentes previstos na norma, como despesas, seguros, encargos, contribuições condominiais e tributos. Entram também os valores pertinentes à consolidação e as despesas exigíveis para a nova aquisição. Solicite uma memória de cálculo que identifique cada rubrica e evite duplicidades.
Organize o pedido com antecedência: identifique a garantia, obtenha o valor atualizado, confira o meio de pagamento e documente a resposta do credor. A existência do direito não torna suficiente um pedido genérico de boleto nem transforma qualquer depósito parcial em aquisição concluída. O intervalo legal também não é uma autorização para aguardar uma venda consumada e depois recomprar o bem automaticamente.
Confira a comunicação das datas, dos horários e dos locais dos leilões, disciplinada no § 2º-A, separadamente da intimação para purgar a mora. São atos com funções e momentos distintos. O texto legal inclui, quando houver, o terceiro fiduciante; a identidade do proprietário que prestou a garantia merece atenção.
O que o Tema 1.288/STJ esclarece?
O Tema 1.288/STJ, no REsp 2.126.726/SP, foi julgado pela Segunda Seção em 10/12/2025, sob relatoria do ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, com publicação em 17/12/2025. A página oficial informa trânsito em julgado em 15/6/2026. Tese e situação oficial do repetitivo.
O precedente diferencia a mora já purgada, no regime anterior à Lei 13.465/2017, da consolidação sem purgação alcançada pelo regime novo. Nessa última situação, reconhece a preferência legal, em vez da retomada do contrato apenas pelo pagamento do atraso. A data antiga do contrato não resolve, sozinha, o enquadramento: é necessário reconstruir a cronologia dos atos.
Essa distinção evita confundir regularização do contrato com nova aquisição do imóvel. Para as etapas anteriores, consulte os guias de notificação cartorária e de purgação da mora e seus efeitos. O Tema 1.288 não estabelece uma preferência geral para familiares ou licitantes comuns.
O locatário pode exercer preferência no leilão?
Ser locatário não garante o direito de igualar qualquer lance. O art. 32 da Lei 8.245/1991 exclui a preferência nos casos de perda da propriedade ou venda por decisão judicial, entre outras hipóteses. Seu parágrafo único trata da propriedade fiduciária e das formas de realização de garantia, inclusive leilão extrajudicial. Lei do Inquilinato, arts. 27 a 34.
No parágrafo único, a lei se refere a contratos firmados a partir de 1º/10/2001 e exige que a condição conste expressamente de cláusula contratual específica, com destaque gráfico. A análise da alienação fiduciária, portanto, não deve se resumir à frase “locatário nunca tem preferência”.
Obtenha contrato, aditivos, datas, averbações e documentos da venda. Uma alienação judicial, a execução de uma garantia e uma venda voluntária precisam ser enquadradas antes de aplicar as regras locatícias. Os prazos de aceitação e as providências do locatário preterido em venda sujeita à preferência não devem ser transportados para toda arrematação.
Também é necessário separar preferência de permanência no imóvel. Não ter prioridade para comprar não resolve, por si só, todos os efeitos da locação sobre a posse, nem autoriza retirada particular do ocupante.
Como exercer a preferência e quais documentos reunir?
No judicial, a manifestação deve ser dirigida ao juízo, com a comprovação do fundamento e atenção às regras do certame. Informar apenas um atendente da plataforma pode não produzir o reconhecimento pretendido nos autos. Na preferência fiduciária, documente a comunicação ao credor e o atendimento das condições legais de aquisição.
| O que demonstrar | Documentos úteis | Providência |
|---|---|---|
| Titularidade do direito | Matrícula, certidões, documentos da união, contrato de garantia ou atos de tombamento, conforme a hipótese. | Indicar qual norma sustenta a preferência e quem pode exercê-la. |
| Objeto e condições | Edital integral e retificações, avaliação, decisões, proposta e cronograma. | Conferir o que será adquirido, o preço e o procedimento de manifestação. |
| Capacidade de cumprir a aquisição | Oferta formal, condições de pagamento, garantias e memória de cálculo pertinente. | Apresentar uma pretensão executável, sem depender de crédito ainda incerto. |
| Ciência e oportunidade | Intimações, correspondências, protocolos, respostas e registros do certame. | Preservar a cronologia e a prova de eventual impedimento ao exercício. |
O art. 889 do CPC exige cientificação da alienação com antecedência mínima de cinco dias para os sujeitos ali previstos, inclusive o coproprietário de bem indivisível cuja fração foi penhorada. Isso não constitui um prazo uniforme de cinco dias para qualquer pessoa exercer preferência. A intimação da penhora, a ciência da alienação e a apresentação da oferta são atos diferentes.
Confira também eventuais impedimentos à participação do interessado, representação e habilitação. A condição preferencial não elimina as restrições legais a quem pode oferecer lance. Para a conferência geral do lote, utilize o checklist jurídico antes da arrematação.
Preferência desrespeitada anula automaticamente a venda?
A conclusão exige identificar o direito efetivo, a falha, o momento da alegação e a consequência pretendida. A omissão no edital não permite tratar todo direito como inexistente; a afirmação de que alguém gostaria de comprar também não demonstra, sozinha, uma preterição relevante.
No REsp 2.202.208/SC, julgado em 5/5/2026 e publicado em 13/5/2026, a Terceira Turma do STJ manteve uma alienação judicial por iniciativa particular realizada após o segundo leilão. A relatora, ministra Nancy Andrighi, considerou a falta de prejuízo demonstrado nas circunstâncias examinadas. O voto registrou a ciência de familiares sobre o interesse do adquirente, a ausência de propostas e a alegação tardia de perda da oportunidade de exercer preferência. Inteiro teor oficial do STJ.
O caso não concede liberdade para ignorar o procedimento nem define uma prioridade universal para qualquer parente. Sua utilidade aqui é mostrar por que a alegação deve ser acompanhada da prova da oportunidade efetivamente perdida, das condições para comprar e da manifestação no momento adequado.
Vídeo complementar: Falha no procedimento e demonstração de prejuízo. Igor Lopes Assunção comenta o REsp 2.202.208, no qual o STJ manteve uma alienação judicial por iniciativa particular diante das circunstâncias do caso e da ausência de prejuízo demonstrado.
Organize o que foi oferecido, quando a pessoa tomou ciência, quais condições poderia cumprir e como a falha impediu a aquisição pretendida. Compare esses elementos com edital, comunicações e decisões. A mera perda do imóvel pelo executado não substitui a prova do prejuízo atribuído ao vício.
No regime judicial do CPC, o art. 903, § 2º, prevê provocação em até dez dias após o aperfeiçoamento da arrematação para as situações do § 1º. Depois da expedição da carta ou da ordem de entrega, o § 4º disciplina ação autônoma, com participação necessária do arrematante. Esses marcos não são um prazo geral para toda preferência, reparação ou venda extrajudicial. A via adequada depende da condição da pessoa e da fase do caso.
O guia de fundamentos para discutir a anulação de leilão desenvolve os possíveis vícios. A existência de preferência precisa ser considerada juntamente com a estabilidade da aquisição e os direitos do arrematante, sem prometer desfazimento ou indenização.
O que verificar se você vai disputar o imóvel?
Procure nos autos os titulares identificados, as comunicações, os pedidos de preferência e as decisões sobre habilitação ou condições de compra. Na execução fiduciária, confira as informações disponíveis sobre eventual exercício da preferência e a situação atual do procedimento.
Se houver pedido pendente, não o trate automaticamente como suspensão, mas obtenha seu conteúdo e a decisão pertinente. Se o edital não explica como uma preferência será operacionalizada, busque esclarecimento formal antes da oferta e preserve a resposta.
A preferência não elimina as demais verificações: objeto, ocupação, débitos, registro, prazo e custo total. A compra deve continuar viável se a disputa exigir esclarecimentos ou se você não for o adquirente. O tempo gasto na análise não justifica ultrapassar seu limite de lance.
Perguntas frequentes
Adjudicação e arrematação com preferência são a mesma coisa?
Não. A adjudicação tem procedimento próprio nos arts. 876 a 878 do CPC, com requisitos e legitimados para requerer a transferência do bem. A preferência para arrematar atua na alienação, segundo sua base legal. Identifique a fase antes de formular o pedido; o artigo sobre adjudicação de imóvel penhorado explica o outro instituto.
Quem oferece proposta para todos os bens tem preferência?
O art. 893 do CPC prevê uma regra para a proposta conjunta, exigindo, para bens sem lance, preço igual ao da avaliação e, para os demais, o maior lance oferecido na tentativa individual. Ela não permite obter qualquer desconto por comprar vários bens nem se confunde com preferência familiar ou do coproprietário.
A preferência do credor para receber dinheiro permite comprar primeiro?
São questões distintas. A ordem para receber o produto da alienação não equivale a um direito geral de adquirir o imóvel antes de terceiros. As condições do exequente que arremata e as regras de distribuição do dinheiro têm disciplina própria; não se presume prioridade de compra apenas por existir crédito ou penhora.
Antes de invocar ou enfrentar uma preferência, esclareça quem é o titular, qual a base legal e quais condições permitem exercê-la. O exame do edital, da matrícula, das comunicações e das decisões pode identificar a providência adequada e seus limites, antes de assumir obrigações ou pedir o desfazimento da venda.
