Um imóvel pode ser vendido abaixo de uma avaliação sem que o leilão seja automaticamente inválido. A resposta depende de qual avaliação está sendo comparada, do tipo de leilão, da etapa do procedimento, da data dos atos e do preço mínimo que a lei, o juiz ou o edital permitiam aceitar.
“Valor de mercado”, “valor do contrato”, “base do ITBI”, “avaliação judicial”, “saldo da dívida” e “preço da arrematação” são números diferentes. Antes de chamar o lance de preço vil, é necessário descobrir qual deles governava o certame e qual documento comprova cada valor.
Primeiro identifique se o leilão é judicial ou extrajudicial
No leilão extrajudicial da alienação fiduciária, os referenciais estão principalmente nos arts. 24, 26-A e 27 da Lei nº 9.514/1997. O contrato, a finalidade do crédito, a consolidação, os editais e a planilha da dívida são documentos centrais.
No leilão judicial, a avaliação integra o processo, o juiz define as condições da alienação e o edital deve informar o valor avaliado e o preço mínimo. Nesse rito, os arts. 873, 885, 886, 891 e 903 do Código de Processo Civil orientam a conferência.
As regras não são intercambiáveis. O limite do art. 891 do CPC não substitui os cálculos da Lei nº 9.514/1997, e a dívida prevista no segundo leilão fiduciário não define o lance mínimo de uma execução judicial. Para uma visão geral das etapas, consulte o guia sobre como funciona o leilão de imóveis.
Qual “valor de avaliação” deve ser comparado?
O primeiro passo é localizar a origem do número:
- preço de mercado: estimativa produzida por laudo ou por negócios comparáveis;
- valor contratual para leilão: valor indicado no contrato de alienação fiduciária, com seu critério de revisão;
- base fiscal do ITBI na consolidação: valor utilizado pelo órgão competente para apurar o imposto exigível quando a propriedade é consolidada;
- avaliação judicial: valor apurado no processo por oficial de justiça ou avaliador;
- preço mínimo do edital: limite divulgado para receber lances;
- dívida e encargos: soma usada nos regimes do segundo leilão extrajudicial;
- preço da arrematação: valor efetivamente aceito no certame.
Uma captura de anúncio pode indicar que o imóvel talvez valha mais, mas não substitui contrato, laudo, decisão, edital ou documento fiscal. Da mesma forma, o fato de o lance superar a dívida não prova, sozinho, que o preço mínimo foi respeitado.
Quadro: qual referencial conferir em cada situação?
| Modalidade | Etapa | Referencial aplicável | Documento que comprova | O que a divergência pode indicar |
|---|---|---|---|---|
| Extrajudicial | Primeiro leilão | Valor contratual revisado e, quando aplicável, base do ITBI superior | Contrato, critério de revisão, documento fiscal e edital | Erro no piso, atualização ou edital; exige análise temporal |
| Extrajudicial | Segundo leilão — art. 27 atual | Dívida e encargos; sem lance nesse total, o credor pode aceitar ao menos metade da avaliação | Planilha discriminada, avaliação, edital e resultado | Lance inferior ao mínimo legal ou cálculo incompleto |
| Extrajudicial | Segundo leilão — art. 26-A atual | Dívida garantida mais antiga e encargos indicados no § 3º | Contrato, finalidade do crédito, garantias, planilha e edital | Uso do regime errado ou do referencial incorreto |
| Extrajudicial | Avaliação ou descrição possivelmente desatualizada | Situação real do imóvel e critério juridicamente aplicável | Matrícula, plantas, habite-se, fotos, laudo e edital | Erro relevante de descrição ou formação do preço; não é nulidade automática |
| Extrajudicial | Leilões sem lance e venda posterior | Regime da livre disponibilidade após frustração, conforme lei aplicável | Atas negativas, matrícula e instrumento da venda posterior | Questão distinta de arrematação abaixo do piso |
| Judicial | Juiz fixou preço mínimo | Mínimo indicado na decisão e no edital | Decisão, laudo de avaliação e edital | Lance abaixo do mínimo é preço vil pelo art. 891 |
| Judicial | Sem preço mínimo fixado | 50% da avaliação judicial | Laudo/auto de avaliação, decisão e edital | Lance inferior a 50% é preço vil pelo art. 891 |
| Judicial | Avaliação com erro ou alteração posterior relevante | Valor apurado em nova avaliação, se admitida pelo juízo | Prova do erro ou da mudança, pedido e decisão | Necessidade de nova avaliação; deve ser arguida no momento adequado |
Qual é o mínimo no primeiro leilão extrajudicial?
O art. 24, VI, da Lei nº 9.514/1997 exige que o contrato indique o valor do imóvel para venda em leilão e os critérios de revisão. O parágrafo único do mesmo artigo estabelece que, se o valor convencionado for inferior ao utilizado pelo órgão competente como base de cálculo do ITBI exigível por força da consolidação, a base fiscal superior será o valor mínimo do primeiro leilão.
O art. 27, § 1º, remete corretamente a esses referenciais: se, no primeiro leilão, o maior lance for inferior ao valor estipulado na forma do art. 24, VI, e de seu parágrafo único, será realizado o segundo leilão nos quinze dias seguintes.
Isso não autoriza usar qualquer valor venal encontrado no cadastro municipal. Deve ser identificado o valor efetivamente utilizado para a apuração do ITBI da consolidação, além da redação legal vigente na data do ato.
Para conferir o primeiro leilão, coloque lado a lado:
- valor indicado no contrato;
- índice e periodicidade de revisão;
- memória da atualização até a data do leilão;
- base fiscal usada para o ITBI, quando a regra for aplicável;
- valor divulgado no edital;
- maior lance recebido.
Se o maior lance não alcançar o mínimo do primeiro leilão, a venda não deve ser concluída nessa etapa. O procedimento segue para o segundo leilão, com outra referência.
Qual é o mínimo no segundo leilão extrajudicial do art. 27?
Na redação atual do art. 27, § 2º, o segundo leilão procura primeiro lance igual ou superior à soma da dívida garantida, despesas, emolumentos cartorários, seguros, encargos legais, tributos e condomínio.
Se não houver lance que alcance esse total, o credor pode, a seu exclusivo critério, aceitar proposta de pelo menos metade do valor de avaliação do bem. A regra não permite vender por qualquer preço, não obriga o credor a aceitar exatamente 50% e não se aplica automaticamente a atos realizados antes da Lei nº 14.711/2023.
Exemplo numérico ilustrativo
Considere, apenas para ilustrar a redação atual do regime geral, avaliação juridicamente aplicável de R$ 800.000 e dívida total com encargos de R$ 520.000. O segundo leilão busca primeiro lance de pelo menos R$ 520.000. Se ninguém alcançar esse total, o credor pode decidir aceitar lance de R$ 400.000 ou mais, porque R$ 400.000 corresponde à metade da avaliação.
Se a dívida e os encargos fossem R$ 300.000, isso não significaria autorização automática para vender por R$ 300.000: a alternativa legal continuaria limitada a pelo menos metade da avaliação. O exemplo não substitui a identificação do contrato, da lei vigente na data do ato e dos valores documentados.
Quando o art. 26-A muda o segundo leilão?
O art. 26-A possui regime especial para financiamentos destinados à aquisição ou à construção do imóvel residencial do devedor, exceto operações de consórcio. Não basta que o bem seja usado como moradia: a finalidade comprovada do financiamento e o imóvel objeto da operação precisam ser identificados.
No segundo leilão desse regime, o § 3º adota como referencial o valor integral da dívida garantida pela alienação fiduciária mais antiga vigente sobre o bem, acrescido das despesas, seguros, encargos legais, tributos e condomínio. A lei não repete aqui a alternativa geral de metade da avaliação.
Se não houver lance que atinja o referencial, o § 4º prevê extinção da dívida, recíproca quitação e livre disponibilidade do imóvel pelo credor. Quando nenhum licitante compareceu ou nenhum lance atingiu o mínimo, a análise passa ao tema específico do leilão negativo e seus efeitos.
O que o STJ decidiu sobre preço vil no leilão extrajudicial?
No REsp 2.096.465/SP, a Terceira Turma do STJ decidiu que as normas que impedem arrematação por preço vil também se aplicam ao leilão extrajudicial de imóvel alienado fiduciariamente. O caso tratou de certame anterior à Lei nº 14.711/2023 e considerou, como regra, vil o preço inferior a 50% da avaliação, ressalvadas as particularidades concretas.
O precedente não transforma toda venda abaixo do mercado em nulidade. Primeiro é necessário provar qual avaliação deve ser usada, qual era o mínimo, quanto foi pago e qual lei regia o ato.
Em 2026, o AgInt no AREsp 3.159.391/RJ manteve conclusão que reconhecera vício no edital e preço inferior a 50% em leilão anterior à reforma de 2023. Como o STJ também aplicou limites de reexame de fatos e provas, o julgado reforça a orientação, mas não elimina a necessidade de documentação no caso concreto.
Avaliação ou descrição desatualizada pode afetar o preço?
Pode, quando o erro ou a defasagem for relevante e estiver ligado à formação do preço. No REsp 2.167.979/PB, o STJ analisou imóvel descrito como terreno, embora houvesse construção expressiva. A descrição inadequada e a arrematação em torno de 23% da avaliação compatível com a realidade levaram à invalidação da venda e à determinação de novo leilão.
O julgamento não torna inválida toda avaliação antiga nem exige que qualquer pequena reforma apareça no edital. A análise deve verificar:
- se o critério contratual de revisão foi aplicado;
- se houve obra ou alteração significativa;
- se metragem, destinação e características foram descritas corretamente;
- se a informação omitida poderia reduzir a concorrência e o preço;
- se existe laudo tecnicamente defensável com data-base próxima do certame.
Como funciona o preço mínimo no leilão judicial?
No processo judicial, a referência nasce dos autos. A avaliação deve indicar as características, o estado e o valor do bem. O juiz estabelece o preço mínimo e as condições da alienação, e o edital deve informar a avaliação e o mínimo.
O art. 891 do CPC adota dois níveis:
- se o juiz fixou preço mínimo no edital, é vil o lance inferior a esse mínimo;
- se não fixou, é vil o lance inferior a 50% da avaliação.
Por isso, os 50% não substituem a leitura da decisão e do edital. Também não se deve usar, no leilão judicial, a fórmula do segundo leilão fiduciário baseada na dívida e nos encargos.
Quando cabe pedir nova avaliação no processo?
O art. 873 do CPC admite nova avaliação quando uma parte demonstra erro ou dolo, quando houve majoração ou diminuição posterior do valor do bem ou quando o juiz tem fundada dúvida sobre a primeira avaliação. Alegar apenas que anúncios mostram preço maior tende a ser insuficiente: a divergência precisa ser documentada e arguida no momento processual adequado.
Como conferir se o lance respeitou o mínimo?
- Identifique o rito: verifique matrícula, contrato e eventual número do processo.
- Monte a cronologia: contrato, inadimplemento, consolidação ou penhora, avaliação, editais, leilões, auto/ata e registro.
- Localize a avaliação correta: contratual revisada, base fiscal quando aplicável ou laudo judicial.
- Obtenha o edital integral: não use apenas a tela resumida do portal.
- Peça a memória da dívida: discrimine principal, encargos, seguros, emolumentos, tributos e condomínio.
- Obtenha o resultado: ata, auto, certidão ou relatório do leiloeiro com lances e preço aceito.
- Confira a realidade do imóvel: matrícula, plantas, habite-se, fotos e benfeitorias relevantes.
- Compare a lei vigente na data dos atos: não use apenas a data do contrato.
Se a dúvida estiver concentrada no saldo que ainda pode ser exigido, o guia sobre cobrança da dívida depois do leilão trata dessa consequência. Se houve produto superior ao débito e às despesas, consulte a orientação sobre devolução da sobra do leilão.
O que pode ser discutido antes ou depois da arrematação?
Antes da venda
Se o edital usa valor aparentemente errado, a divergência deve ser formalizada com os documentos que mostram o referencial correto. Reclamação ao credor ou ao leiloeiro, negociação informal e simples ajuizamento de ação não suspendem o certame por si sós. O guia sobre como identificar a medida adequada em cada fase organiza as alternativas sem substituir a análise do caso.
No leilão judicial, depois do lance
Assinado o auto, a arrematação é considerada perfeita, acabada e irretratável, mas o art. 903 admite invalidação por preço vil ou outro vício. O juiz decide se for provocado em até 10 dias após o aperfeiçoamento. Depois da expedição da carta de arrematação ou da ordem de entrega, a invalidação pode ser pleiteada por ação autônoma, na qual o arrematante figura como litisconsorte necessário.
No leilão extrajudicial, depois da arrematação
Devem ser obtidos o resultado do certame, o preço pago, a matrícula atualizada e a identificação do adquirente. A redação atual do art. 30 também precisa ser considerada: dependendo da data e da natureza da controvérsia, a consequência pode envolver perdas e danos e não impedir a reintegração, ressalvada a matéria de notificação prevista na lei.
Isso não permite resposta automática. O artigo sobre providências após a arrematação explica por que registro, adquirente e fase alteram a medida possível. Já os fundamentos para discutir a invalidação do leilão devem ser avaliados separadamente, sem presumir que a diferença de preço basta.
Documentos essenciais
- contrato e aditivos;
- matrícula atualizada;
- cláusula de valor e critério de revisão;
- documento da base fiscal usada no ITBI da consolidação, quando pertinente;
- laudo, auto ou ficha de avaliação;
- decisão judicial que fixou o mínimo, se houver processo;
- editais integrais;
- planilha discriminada da dívida e dos encargos;
- ata, auto, certidão ou relatório do leilão;
- comprovante do preço pago;
- plantas, habite-se, fotos datadas e prova de benfeitorias relevantes;
- comunicações e protocolos com banco, cartório e leiloeiro.
Conclusão
Um lance abaixo de uma avaliação pode ser permitido, mas não existe um único número válido para todos os leilões. No extrajudicial, é preciso separar primeiro leilão, art. 27 e art. 26-A. No judicial, prevalecem o mínimo fixado pelo juiz e, na falta dele, a regra subsidiária de 50% da avaliação.
A conferência deve partir dos documentos: contrato, avaliação, base fiscal quando aplicável, decisão, edital, planilha da dívida e resultado do certame. Diferença entre anúncio de mercado e lance não gera nulidade automática; erro no referencial, descrição materialmente inadequada ou lance abaixo do mínimo podem ser relevantes, conforme a prova, a data e a fase.
Quando houver divergência documentada, uma análise jurídica individual pode indicar a providência compatível com o rito e o estágio do procedimento, sem garantia de suspensão, invalidação ou recuperação do imóvel.
Fontes oficiais consultadas
- Lei nº 9.514/1997 — norma atualizada, especialmente arts. 24, 26-A, 27 e 30.
- Lei nº 13.465/2017.
- Lei nº 14.711/2023.
- Código de Processo Civil — texto compilado, especialmente arts. 873, 885, 886, 891 e 903.
- STJ — Informativo 812, REsp 2.096.465/SP.
- STJ — AgInt no AREsp 3.159.391/RJ, inteiro teor.
- STJ — REsp 2.167.979/PB, inteiro teor.
